Case de produto do a11yhub.br: ecossistema de curadoria de acessibilidade digital em PT-BR, com plataforma comunitária e newsletter quinzenal. Construído por um único designer do discovery ao produto em produção.
O A11YBR é parte de um ecossistema criado para dar visibilidade à acessibilidade digital no Brasil. O ponto de partida foi o Foco Acessível, podcast de entrevistas com profissionais da área. Com o tempo, o projeto expandiu para dois produtos complementares: uma plataforma comunitária de curadoria de recursos (conteúdos, eventos, perfis) e a A11YBR no Substack, newsletter quinzenal de curadoria para profissionais.
Ambos compartilham a mesma missão: quebrar a concentração geográfica do conhecimento sobre acessibilidade no Brasil e dar visibilidade a iniciativas, profissionais e conteúdos de todas as regiões do país.
Atuei em todos os papéis: estratégia de produto, pesquisa, design de experiência e interface, identidade visual e execução técnica com auxílio de IA generativa.
Problema
O ponto de partida foi o Foco Acessível, podcast de entrevistas com profissionais sobre o dia a dia de trabalho com acessibilidade. Após alguns episódios, um padrão ficou evidente: os convidados vinham majoritariamente do eixo Sudeste–Sul. Não por falta de profissionais em outras regiões — eram conhecidos —, mas por ausência de visibilidade.
Havia iniciativas, comunidades e profissionais espalhados pelo Brasil inteiro. Grupos no Facebook, WhatsApp, Telegram, Reddit, mas cada um fechado em si mesmo, sem descoberta fácil, sem convergência. Quem não estava no grupo certo simplesmente não sabia que existia.
O A11YBR não nasceu como solução definitiva para esse problema. Nasceu como ferramenta de visibilidade: um ponto de acesso público, pesquisável e aberto a contribuições de qualquer lugar do Brasil.
Restrições do contexto:
- Projeto 100% solo, sem orçamento, com hospedagem compartilhada.
- Escopo precisava ser viável para uma única pessoa construir e manter.
- Um hub de acessibilidade precisa ser acessível — credibilidade técnica não era opcional.
Abordagem
Discovery
A pesquisa foi a própria prática. As conversas do Foco Acessível funcionaram como entrevistas qualitativas informais: profissionais relatavam onde encontravam (ou não encontravam) conteúdo, como se mantinham atualizados, quais iniciativas conheciam e quais permaneciam invisíveis fora de seus estados.
O mapeamento do cenário revelou um padrão consistente:
- Comunidades existem, mas são fechadas por padrão — grupos de WhatsApp e Telegram funcionam por convite, sem indexação pública.
- O conteúdo é disperso e efêmero — threads no Twitter, posts no LinkedIn, vídeos no YouTube sem curadoria centralizada.
- A produção fora do eixo SP–RJ existe mas não tem alcance — iniciativas do Norte e Nordeste circulam apenas dentro de suas próprias redes.
- Não há convergência em PT-BR — os hubs de acessibilidade mais organizados estão em inglês (WebAIM, A11Y Project, Deque).
Esse diagnóstico definiu os princípios do produto: público por padrão, pesquisável, com contribuição aberta e moderação para garantir qualidade.
Estratégia
O produto foi concebido em dois vetores complementares:
- Plataforma — descoberta por demanda: quem busca encontra, quem produz conteúdo tem onde ser encontrado
- Newsletter — atualização passiva: curadoria entregue quinzenalmente para quem não tem tempo de buscar
Dentro da plataforma, três eixos: descoberta (busca, filtros, tags, RSS), contribuição (submissão de conteúdo, evento e perfil) e comunidade (rede de profissionais, agenda de eventos).
Métodos e princípios
- Design system construído antes das telas — tokens de cor, tipografia e espaçamento como fundação;
- Formulários reativos por tipo de conteúdo para reduzir atrito na submissão;
- Testes end-to-end com Playwright incluindo checagens de acessibilidade automatizadas;
- Postura explícita contra ferramentas de overlay de acessibilidade;
- Analytics (GA4) ativado somente após consentimento do usuário;
- Licença CC BY-NC-SA 4.0 para o conteúdo da plataforma.
Decisões-chave
1. Taxonomia de conteúdo como estrutura de descoberta
Critério: o usuário não sabe exatamente o que está procurando — precisa de múltiplas entradas.
Defini um modelo de conteúdo com tipo (artigo, livro, curso, podcast, vídeo, produto digital), nível de profundidade, tema e plataforma. Isso permite descoberta por diferentes perfis: quem quer aprender do zero encontra por nível; quem busca referência específica filtra por tipo; quem quer conteúdo local encontra por autor ou perfil.
Trade-off: taxonomia mais granular aumenta a carga de quem submete. Mitigado com formulários reativos que exibem apenas os campos relevantes para cada tipo de conteúdo.
2. Submissão aberta com moderação assíncrona
Critério: baixar a barreira de contribuição sem abrir mão da qualidade.
O fluxo foi desenhado para ter o mínimo de campos obrigatórios e máximo de contexto fornecido pela plataforma (labels, ajuda inline, suporte a Markdown). Qualquer pessoa pode submeter; nada aparece publicamente sem aprovação.
Trade-off: latência entre submissão e publicação pode frustrar contribuidores. Mitigado com e-mail de confirmação e notificação de aprovação.
3. Login social para reduzir atrito no cadastro
Critério: o público-alvo — designers, devs, especialistas em acessibilidade que já tem contas Google, GitHub e LinkedIn.
Criar uma nova senha para uma plataforma desconhecida é fricção que mata conversão. Login social reduz esse atrito e ancora a identidade profissional da pessoa no perfil público.
Trade-off: dependência de provedores terceiros. Aceita — o ganho em adesão justifica.
4. Posicionamento explícito contra overlays de acessibilidade
Critério: integridade da missão perante o público que mais entende do tema.
Ferramentas como UserWay e accessiBe são usadas como atalho para “parecer acessível” sem corrigir o código subjacente. Uma plataforma de referência que tolerasse essa ambiguidade perderia credibilidade imediatamente com especialistas. Criei uma política pública com o posicionamento — transparência como diferencial de produto.
5. LGPD como componente de confiança
Critério: a comunidade de acessibilidade é sensível a questões de privacidade e direitos digitais.
Implementei consentimento granular de cookies, página “meus dados” com exportação e política detalhada com lista explícita de subprocessadores. Isso excede o mínimo legal e comunica respeito pela privacidade como valor — não como compliance.
Solução

A plataforma está em produção com:
- Catálogo curado de conteúdos classificados por tipo, nível, tema e plataforma, com busca, filtros e tags interativas;
- Agenda de eventos de acessibilidade, com funcionalidade “adicionar ao calendário”;
- Rede de profissionais com perfis públicos, login social e distinção de membros da equipe curadora;
- Sistema de submissão com formulários reativos por tipo, bookmarklet para envio rápido e fluxo completo de moderação.





Identidade visual
A identidade foi construída como parte do produto, nada camada decorativa. O design system define tokens de cor (navy como base de credibilidade técnica, verde como marca primária, amarelo e azul como apoio), tipografia (Space Grotesk para display, DM Sans para corpo) e estados interativos. Todas as combinações foram testadas para conformidade WCAG AA em modo claro e escuro.
Newsletter no Substack
Complementar à plataforma, a newsletter entrega curadoria ativa quinzenalmente. Cada edição inclui notícias com contexto editorial, ferramentas, pesquisas, uma personalidade da área e eventos futuros — com critério explícito de diversidade geográfica. A diferença de modelo é intencional: a plataforma serve à descoberta por demanda; a newsletter serve à atualização passiva. Juntas, cobrem os dois momentos em que o profissional precisa do conteúdo.
Impacto e aprendizados
Impacto
O A11YBR preenche uma lacuna estrutural: não existe plataforma equivalente em PT-BR com essa cobertura de tipos de conteúdo, modelo de contribuição comunitária e postura técnica explícita sobre acessibilidade.
O produto foi projetado para conformidade com WCAG 2.1 nível AA. Durante o desenvolvimento, foram conduzidas múltiplas rodadas de auditoria manual e automatizada (Playwright + axe-core), corrigindo mais de 35 issues identificados. Uma auditoria formal independente está planejada como próximo passo.
A combinação plataforma + newsletter cria um ecossistema que atua nos dois modos de consumo de informação do profissional: busca ativa e atualização passiva.
Aprendizados
- Credibilidade técnica é diferencial para públicos especializados. Um hub de acessibilidade com código inacessível seria descredenciado por quem mais entende do assunto. Auditoria iterativa foi parte essencial do produto, não etapa final.
- Posicionamento claro atrai o público certo. A política sobre overlays afasta quem busca atalhos e atrai quem leva acessibilidade a sério — exatamente o perfil de contribuidor que o projeto precisa.
- Moderação assíncrona é viável em projetos solo. O modelo funciona bem em escala inicial e pode evoluir para moderação distribuída conforme a comunidade cresce.
- Lived experience é pesquisa. As conversas do Foco Acessível funcionaram como discovery contínuo — o problema foi identificado e validado antes de qualquer linha de código.
Passos futuros
- Abrir moderação para contribuidores de confiança da comunidade;
- Adicionar avaliações e comentários em conteúdos;
- Criar painel de analytics público com dados agregados sobre produção de conteúdo de acessibilidade no Brasil;
- Conduzir auditoria formal de acessibilidade (WCAG 2.1 AA);
- Explorar parcerias com eventos e iniciativas como WEBAXXESS, FENACAP e comunidades regionais
Participe
O A11YBR é um projeto aberto à comunidade. Você pode contribuir submetendo conteúdos, indicando eventos, criando seu perfil na rede ou sugerindo correções.
Se preferir receber curadoria direto na caixa de entrada, assine a A11YBR no Substack — newsletter quinzenal gratuita sobre acessibilidade digital para profissionais brasileiros.
→ Acessar a plataforma: a11yhubbr.com.br
→ Assinar a newsletter: a11yhubbr.substack.com/

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