Publicação independente lançada no maior festival literário de Pernambuco. A diagramação reuniu quadrinhos, poesia marginal e prosa em uma estrutura editorial com começo, meio e encerramento deliberados — dentro das restrições de impressão em A4 e sem acesso à suite Adobe.
Introdução
A Zine Zena #1 nasceu como parte da programação alternativa da Alt!Fest Fliporto 2012, o maior evento literário de Pernambuco. Uma publicação independente, distribuída gratuitamente em 500 exemplares, reunindo quadrinhos, tiras, poesia e prosa de colaboradores do ecossistema criativo local.
Fui responsável pela diagramação editorial: da definição de estrutura e grid ao tratamento de cada contribuição dos colaboradores.
Problema
Reunir vozes diversas — poetas, quadrinistas, escritores — em uma publicação física
coerente, com restrições concretas:
- Restrição de produção: formato impresso em A4 dobrado — cada folha física
gera exatamente 4 páginas na zine. Toda a paginação precisava ser múltipla de 4. - Restrição de ferramenta: sem acesso à suite Adobe, precisei aprender e trabalhar
com Scribus, software open-source para Linux, do zero — durante o próprio projeto. - Diversidade de conteúdo: quadrinhos, tiras, poesia, prosa — cada formato com
lógica visual própria, precisando conviver com coesão.
O desafio editorial: dar identidade e ritmo a uma publicação colaborativa sem apagar as vozes individuais.
Abordagem
A decisão estrutural central foi tratar a zine como uma publicação editorial de verdade — com começo, meio e fim deliberados:
- Capa — identidade visual forte, assinada pela artista plástica recifense Badida Campos
- Editorial e expediente — contextualização e credibilidade editorial
- Conteúdo principal — quadrinhos, tiras, prosa e poesia no núcleo da publicação
- Mimos — encerramento com trechos curtos de poesia em diagramação não convencional
Essa sequência criou ritmo de leitura: expectativa construída → satisfeita → subvertida.

Decisões-chave
1. A4 como unidade de produção, não de design
Cada folha A4 = 4 páginas da zine. Isso não foi só uma restrição técnica — virou a lógica do projeto. A paginação em múltiplos de 4 determinou como cada contribuição foi alocada e em que ordem os materiais apareciam. Conteúdos que não fechavam em 4 páginas ganharam páginas de respiro, que se tornaram espaços visuais intencionais.
2. Estrutura convencional como âncora para o não-convencional
Usar capa, editorial e expediente — elementos de publicações tradicionais — numa zine independente foi uma escolha deliberada: conferir autoridade editorial ao projeto sem comprometer o espírito independente.
Isso criou um contrato com o leitor. E foi esse contrato que deu peso aos “mimos” no final: a diagramação não convencional só funciona como ruptura porque o restante da publicação estabeleceu um padrão antes.
3. Os “mimos” como encerramento de outra frequência
Poesia marginal pede outro ritmo de olhar. Colocá-la no encerramento, com layout mais livre, foi uma decisão editorial: deixar o leitor saindo da zine num estado diferente do que entrou. Não era decoração — era a última fala da publicação.
4. Scribus: aprendizado como parte do processo
Sem acesso à suite Adobe, o caminho foi aprender Scribus durante o projeto. Isso teve custo real — curva de aprendizado dentro do prazo de produção — mas também eliminou dependência de licença proprietária numa publicação independente e sem orçamento. A restrição e a ferramenta estavam alinhadas com o espírito do próprio projeto.
5. Capa Badida Campos
Delegar a capa a uma artista plástica recifense foi uma decisão de curadoria: a identidade visual da zine não seria resolvida internamente — seria uma obra dentro da obra. Isso ancorou a publicação no ecossistema criativo local e deu à capa um peso que diagramação editorial raramente consegue sozinha.
Solução
A Zine Zena #1 saiu com 500 exemplares distribuídos gratuitamente durante a Alt!Fest Fliporto 2012. Uma publicação com estrutura editorial completa — capa ilustrada, editorial, conteúdo curado e encerramento poético — produzida inteiramente em Scribus, dentro das restrições físicas de impressão em A4.
Impacto e aprendizados
A recepção foi direta: as pessoas recebiam a zine com entusiasmo genuíno. E a entrega do material era também um momento de apresentação da Revista Zena — coletivo de jornalistas com foco em fotografia, mulheres e literatura.
A zine não era um objeto isolado. Era o artefato físico de um projeto editorial maior, e funcionou como ponto de contato humano: as pessoas pegavam a publicação, folheavam ali mesmo, e abriam conversa sobre o coletivo.
Do ponto de vista de design: a restrição de formato físico (A4/4 páginas) e de ferramenta (Scribus aprendido durante o projeto) não foram contornadas — foram incorporadas como lógica. E a estrutura editorial convencional funcionou exatamente como planejado: deu coesão a vozes diversas sem apagar nenhuma delas.

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