Nesta página: Case aborda como reestruturei a arquitetura da informação de um ERP legado atuando na semântica e na estrutura — não na UI — para reduzir entropia, preservar estabilidade e criar uma base sustentável de evolução.

* Arquitetura da Informação

Introdução

Este case aborda um problema recorrente — e frequentemente subestimado — em produtos complexos e maduros: o momento em que a evolução contínua começa a comprometer a própria capacidade de evolução do sistema.

O projeto trata da reestruturação da arquitetura da informação de um ERP Desktop, desenvolvido e expandido ao longo de muitos anos. Nesse período, decisões legítimas em seus contextos originais acumularam-se sem uma revisão estrutural consistente, criando um produto funcional, porém cada vez mais difícil de compreender, sustentar e escalar.

O risco não estava apenas na experiência do usuário, mas na sustentabilidade do produto como sistema. A cada nova funcionalidade, a complexidade crescia de forma não controlada, aumentando o custo de mudança, a dependência de conhecimento tácito e a chance de reincidência de problemas já existentes.

Tipo de produto: ERP Desktop.

Contexto: produto maduro, com múltiplos módulos, regras de negócio extensas e base ativa de usuários.

Meu papel: Designer responsável pelo discovery e pela definição da arquitetura da informação.

O objetivo deste trabalho não foi reorganizar telas, mas interromper um ciclo de entropia estrutural antes que ele se tornasse irreversível.

O problema

O problema central não estava apenas na quantidade de funcionalidades, mas na estrutura semântica fragmentada que sustentava o sistema.

A análise das planilhas que mapeavam menus, funcionalidades e ações revelou um padrão consistente de entropia informacional1:

  • Funcionalidades com o mesmo propósito apareciam registradas com nomes diferentes;
  • Um mesmo termo era utilizado para ações distintas, dependendo do módulo;
  • Categorias misturavam dados, processos e configurações sem um critério claro;
  • Decisões históricas permaneciam registradas por herança, não por relevância atual.

Na prática, isso gerava um sistema que só era plenamente utilizável por quem já possuía conhecimento prévio acumulado, aumentando a curva de aprendizado, a dependência de treinamento e a carga cognitiva para tarefas simples.

O impacto não era apenas para usuários finais:

  • Times internos tinham dificuldade de discutir o produto usando uma linguagem comum;
  • Novas funcionalidades eram adicionadas replicando problemas existentes;
  • A arquitetura deixava de escalar de forma sustentável.

Restrições do contexto:

  • Produto em produção, com base ativa de usuários;
  • Arquitetura técnica legada;
  • Impossibilidade de grandes rupturas estruturais;
  • Necessidade de preservar fluxos críticos já consolidados.

Abordagem

A abordagem partiu do entendimento de que o problema não seria resolvido com ajustes visuais ou reorganizações superficiais de menu. O risco real estava na base semântica que sustentava o produto, e qualquer intervenção que ignorasse isso apenas redistribuiria a complexidade existente.

Diante desse cenário, a estratégia foi atuar deliberadamente na camada estrutural e conceitual, tratando a arquitetura da informação como um mecanismo de alinhamento entre usuários, negócio e tecnologia.

Estratégia adotada

  • Foco na causa raiz, não nos sintomas: em vez de reorganizar telas ou fluxos, a abordagem concentrou-se em compreender o significado real das funcionalidades, suas sobreposições e responsabilidades.
  • Leitura do sistema a partir do domínio, não da interface: as planilhas foram utilizadas como fonte primária para mapear o produto como um sistema de conceitos, permitindo identificar redundâncias invisíveis na UI.
  • Intervenção de baixo risco em produto em produção: ao evitar mudanças visuais, foi possível reduzir impacto operacional e garantir continuidade para usuários experientes, enquanto a base estrutural era reorganizada.
  • Arquitetura como fundação para decisões futuras: a reorganização não foi pensada como entrega pontual, mas como criação de um modelo capaz de orientar evolução, governança e inclusão de novas funcionalidades.

Métodos e princípios utilizados

  • Arquitetura da Informação orientada por significado
  • Consolidação semântica baseada em responsabilidade
  • Hierarquização por contexto de uso e complexidade
  • Princípios de acessibilidade cognitiva, priorizando previsibilidade e consistência

Essa abordagem permitiu atuar em um sistema complexo de forma estratégica, progressiva e sustentável, preparando o terreno para decisões de produto de médio e longo prazo.

Decisões-chave de arquitetura

Ilustração de um bloco sólido rotulado “Arquitetura Resiliente”, com setas apontando para cima indicando novas funcionalidades, escalabilidade e manutenção simplificada, representando a arquitetura como base para evolução sustentável do sistema.
A reorganização não partiu da interface, mas da redefinição de significados e responsabilidades.

As decisões partiram da leitura crítica do material mapeado nas planilhas, tratando a arquitetura como um problema de significado, não de interface.

A decisão mais importante foi não reorganizar a navegação visualmente, mas atacar a causa raiz: a inconsistência semântica que sustentava o crescimento desordenado do sistema.

Decisões tomadas

  1. Normalização semântica antes da estrutura: antes de qualquer reorganização, os termos foram analisados e consolidados a partir do significado real das funcionalidades, reduzindo variações criadas por contexto histórico.
  2. Consolidação de funcionalidades equivalentes: funcionalidades registradas separadamente nas planilhas, mas que representavam a mesma ação ou responsabilidade, foram agrupadas conceitualmente, mesmo quando tecnicamente distintas.
  3. Separação explícita por responsabilidade: a arquitetura passou a distinguir claramente:
    • Dados (cadastros e entidades);
    • Processos (ações e fluxos);
    • Configurações (regras, parâmetros e comportamento do sistema).
  4. Hierarquização por complexidade e contexto de uso: funcionalidades mais operacionais foram separadas de configurações avançadas, reduzindo exposição desnecessária e carga cognitiva.
  5. Redução consciente, não eliminação agressiva: mesmo diante de redundâncias claras, optou-se por não remover funcionalidades críticas sem um plano de transição, priorizando estabilidade e confiança do usuário.

Decisões não tomadas

  • Não redesenhar a UI para evitar ruído visual e retrabalho desnecessário
  • Não reorganizar menus com base apenas em frequência de uso
  • Não introduzir novos conceitos sem antes consolidar os existentes

Essas decisões criaram uma base arquitetural mais coerente, capaz de sustentar evolução futura sem reproduzir a entropia original.

Solução

A solução foi a construção de uma arquitetura da informação orientada por significado, diretamente derivada das decisões semânticas e estruturais tomadas a partir do mapeamento das planilhas. Em vez de partir da interface, a arquitetura passou a refletir responsabilidades claras, reduzindo ambiguidade e criando uma base sustentável para evolução do produto.

Como as decisões se materializaram na solução

  • Normalização semântica aplicada: os termos consolidados passaram a orientar toda a estrutura do sistema, eliminando variações históricas e criando uma linguagem comum entre usuários, produto e tecnologia.
  • Funcionalidades equivalentes reorganizadas conceitualmente: a consolidação identificada nas planilhas resultou em uma estrutura mais enxuta, onde ações com o mesmo propósito passaram a ocupar um único contexto lógico, mesmo quando mantidas tecnicamente separadas.
  • Separação clara entre dados, processos e configurações: essa distinção passou a guiar a navegação e a organização dos módulos, reduzindo confusão e facilitando a compreensão do papel de cada funcionalidade.
  • Hierarquia baseada em complexidade e contexto de uso: funcionalidades operacionais ficaram mais acessíveis, enquanto configurações avançadas foram posicionadas em níveis apropriados, diminuindo exposição desnecessária e carga cognitiva.
  • Estabilidade preservada durante a transição: a solução respeitou fluxos críticos existentes, evitando rupturas bruscas e garantindo continuidade para usuários experientes.

O que foi entregue

  • Estrutura de navegação conceitualmente reorganizada;
  • Redução significativa de redundâncias semânticas;
  • Base arquitetural consistente para novos módulos;
  • Referência clara para documentação, onboarding e tomada de decisão futura.

Limitações conhecidas

  • Algumas redundâncias técnicas foram mantidas por restrições de legado;
  • A solução não elimina completamente a complexidade inerente a um ERP, mas a torna mais compreensível e previsível.

Todo o trabalho foi realizado atuando exclusivamente na camada estrutural e semântica, sem alterações visuais na interface.

Ilustração de um bloco sólido rotulado “Arquitetura Resiliente”, com setas apontando para cima indicando novas funcionalidades, escalabilidade e manutenção simplificada, representando a arquitetura como base para evolução sustentável do sistema.

Todo o trabalho foi realizado sem alterações visuais, atuando exclusivamente na camada estrutural e semântica.

Impactos e aprendizados

Os impactos observados estão diretamente ligados às decisões semânticas e estruturais adotadas, mesmo sem mudanças visuais na interface.

Impacto para usuários

  • Redução da carga cognitiva ao encontrar funcionalidades organizadas por significado e responsabilidade;
  • Maior previsibilidade na navegação, resultado da normalização de nomenclaturas;
  • Menor dependência de conhecimento prévio do sistema para executar tarefas comuns.

Esses efeitos são consequência direta da consolidação semântica e da separação clara entre dados, processos e configurações.

Impacto para o negócio

  • Base arquitetural mais sustentável, reduzindo risco de crescimento desordenado;
  • Inclusão de novas funcionalidades sem necessidade de criar novas categorias ad hoc;
  • Menor custo cognitivo e operacional para evolução do produto.

A decisão de preservar fluxos críticos garantiu estabilidade durante a transição, evitando impacto negativo na operação.

Impacto para times internos

  • Linguagem comum para discutir produto, funcionalidades e evolução;
  • Facilitação do onboarding de novos membros de produto e tecnologia;
  • Arquitetura utilizada como referência para documentação e tomada de decisão.

Aprendizados

  • Decisões semânticas têm impacto direto na experiência, mesmo sem alterações visuais;
  • Atacar a causa estrutural da complexidade gera efeitos mais duradouros do que reorganizações superficiais;
  • Em sistemas complexos, reduzir ambiguidade é tão importante quanto adicionar funcionalidade.

O principal aprendizado foi que arquitetura da informação, quando tratada como estratégia, se torna um ativo de longo prazo para o produto.

Passos futuros

Os próximos passos foram definidos como hipóteses estratégicas, diretamente derivadas da nova base arquitetural criada.

Hipótese 1 — A arquitetura como mecanismo de governança

Hipótese: Se a arquitetura semântica for usada como referência oficial para novas iniciativas, então o produto evitará a reincidência de redundâncias e inconsistências.

Usar a estrutura como base para documentação e tomada de decisão

Aplicar a arquitetura como critério obrigatório para inclusão de novas funcionalidades

Hipótese 2 — Evolução gradual da interface apoiada na estrutura

Hipótese: Se futuras melhorias de UI forem guiadas pela arquitetura consolidada, então será possível evoluir a experiência sem gerar rupturas ou retrabalho.

  • Priorizar ajustes incrementais em fluxos críticos
  • Usar a hierarquia definida para orientar simplificações visuais
Hipótese 3 — Redução contínua da complexidade percebida

Hipótese: Se a separação entre dados, processos e configurações for mantida e reforçada, então usuários terão maior autonomia e menor dependência de treinamento.

  • Validar continuamente a clareza da arquitetura com novos módulos
  • Monitorar pontos de ambiguidade semântica ao longo da evolução do produto
Hipótese 4 — Arquitetura como base para métricas e descoberta

Hipótese: Se a arquitetura for usada como base para análise de uso e discovery, então será possível identificar oportunidades reais de simplificação e consolidação.

  • Mapear uso por categoria semântica, não apenas por tela
  • Usar dados de uso para orientar novas decisões estruturais

Esses próximos passos reforçam a arquitetura da informação como um ativo estratégico contínuo, e não como uma entrega pontual.

Este case foi apresentado de forma intencionalmente anonimizada. Por questões de confidencialidade, o nome da aplicação e dados sensíveis não são divulgados, mantendo o foco nas decisões estruturais e semânticas de arquitetura da informação.

  1. Para a área de Teoria da Informação, a entropia é definida como sendo uma forma de medir o grau médio de incerteza a respeito de fontes de informação, o que consequentemente permite a quantificação da informação presente que flui no sistema. ↩︎