O A11YBR nasce como uma comunidade brasileira para organizar, conectar e dar visibilidade a conteúdos, pessoas, ferramentas e iniciativas de acessibilidade digital.

A acessibilidade digital entrou na minha trajetória profissional ainda no início da minha migração para a área de tecnologia. Naquele momento, eu já percebia que criar boas interfaces exigia mais do que estética, domínio técnico ou atenção às tendências visuais.

Uma experiência específica me marcou bastante. Em uma das empresas por onde passei, foi desenvolvido um site e sistema para um público formado majoritariamente por pessoas idosas, com características culturais e repertórios digitais muito específicos. O resultado visual era muito bom para o contexto da época, cerca de quinze anos atrás. Ainda assim, as pessoas que precisavam usar a solução encontraram dificuldade.

Aquela situação deixou uma questão que seguiu comigo: para quem estamos projetando quando dizemos que uma interface está bem resolvida?

Esse tipo de experiência mudou minha forma de olhar para design, tecnologia e produto. A partir dali, acessibilidade, usabilidade e inclusão passaram a ocupar um espaço constante nos meus estudos e na minha prática profissional.

Com o tempo, fui percebendo um padrão recorrente. A acessibilidade muitas vezes só entra na pauta quando existe pressão externa, risco jurídico, exigência contratual, crise de imagem ou alguma relação direta entre a liderança e uma pessoa impactada por barreiras de acesso. Em muitos contextos, ela ainda é tratada como exceção, especialidade isolada ou responsabilidade de poucas pessoas.

Esse cenário é ruim para usuários, para profissionais e para os próprios negócios.

Acessibilidade digital não diz respeito apenas a pessoas com deficiência, embora esse recorte seja central e precise ser respeitado. Ela envolve qualidade de uso, autonomia, clareza, compatibilidade com tecnologias assistivas, redução de barreiras, melhoria de fluxos, consistência de interface, conteúdo compreensível e maturidade de produto.

Mesmo assim, o conhecimento sobre acessibilidade no Brasil ainda está bastante disperso. Existem profissionais excelentes, comunidades relevantes, ferramentas úteis, eventos, pesquisas, conteúdos, cursos, artigos, iniciativas independentes e projetos de impacto. O problema é que muita coisa fica fragmentada, difícil de encontrar ou restrita a bolhas específicas.

Foi nesse contexto que nasceu o A11YBR.

O A11YBR é uma comunidade criada para reunir e dar visibilidade a informações sobre acessibilidade digital no Brasil. A proposta é conectar pessoas, conteúdos, ferramentas, eventos, pesquisas, organizações, referências e iniciativas que ajudam a fortalecer a construção de produtos digitais mais acessíveis.

Confira os links do projeto:

O projeto não nasce com a intenção de centralizar a pauta. A intenção é ajudar a organizar caminhos de acesso: design, desenvolvimento, produto, QA, pesquisa, conteúdo, educação, tecnologia assistiva e inclusão fazem parte da mesma conversa. Quanto mais esses campos dialogam, mais forte fica o ecossistema.

Junto com a comunidade, também criei uma newsletter quinzenal. A proposta é publicar uma curadoria com temas relevantes sobre acessibilidade digital, tecnologia, inclusão, boas práticas, mercado, referências e iniciativas que merecem circular mais.

Existe um desafio claro: a adesão ao tema ainda é menor do que deveria. Mesmo dentro de comunidades e redes profissionais, acessibilidade nem sempre recebe atenção proporcional à sua importância. Isso não deve ser motivo para reduzir o esforço. Pelo contrário, é um sinal de que ainda existe muito trabalho de articulação, educação e visibilidade a ser feito.

Outro ponto importante é a colaboração entre profissionais da área. Acessibilidade digital já enfrenta resistência suficiente em ambientes corporativos, técnicos e institucionais. Quando o campo se fragmenta demais, todo mundo perde força. A troca entre profissionais, comunidades e iniciativas pode ampliar repertório, gerar oportunidades, distribuir conhecimento e reduzir a sensação de isolamento.

Competição pode existir no mercado, mas causas estruturais precisam de cooperação.

O A11YBR nasce com esse posicionamento: fortalecer a acessibilidade digital no Brasil por meio de curadoria, colaboração e visibilidade. É uma tentativa prática de transformar inquietação em estrutura, frustração em movimento e informação dispersa em conexão.

Ainda é um projeto em construção e talvez justamente por isso ele faça sentido agora.

Se você trabalha, pesquisa, estuda ou se interessa por acessibilidade digital, o convite está aberto: acompanhe, compartilhe, indique referências, envie iniciativas e ajude a ampliar essa rede.

Acessibilidade avança mais quando circula.