Sistema visual completo para a primeira edição da Mostra Cine Brasil Cidadania — três longas inéditos dirigidos por mulheres, entrada gratuita, SESC Santos.

Introdução

A Mostra Cine Brasil Cidadania é um projeto idealizado pelo jornalista e crítico André Azenha e realizado pela CineZen em parceria com o SESC Santos. A primeira edição aconteceu em três quintas-feiras consecutivas de janeiro (9, 16 e 23), às 19h30, na Sala 1 do SESC Santos — com entrada gratuita.

A programação exibiu três longas-metragens dirigidos por mulheres:

  • Bollywood Dream – O Sonho Bollywoodiano (Beatriz Seigner) — primeira coprodução Brasil-Índia
  • Encontros, Sonhos e Realizações (Eliza Capai) — estreia mundial
  • Os Melhores Anos de Nossas Vidas (Andrea Pasquini)

Cada sessão incluiu debate com a diretora, mediado por profissionais do audiovisual santista. Atuei como designer responsável por toda a identidade visual e materiais gráficos da mostra — do logotipo ao sistema de comunicação impresso e digital.

Problema

Evento novo, sem identidade prévia, com três restrições combinadas:

  1. Gratuito e de acesso aberto — precisava comunicar relevância cultural sem parecer elitista
  2. Programação 100% dirigida por mulheres — o recorte de gênero era central, não periférico; a identidade precisava refletir isso sem reduzir o evento a “cinema feminino”
  3. Três filmes distintos, um evento único — a comunicação precisava funcionar como sistema coeso e como peça individual por filme

Sem identidade visual estabelecida, tudo partia do zero — símbolo, tipografia, paleta e regras de aplicação.

Abordagem

Identidade visual:
Parti de pesquisa simbólica — que elementos visuais representam cinema de forma não-literal? O objetivo era fugir da claquete e da bobina. A solução precisava ter carga emocional, não só referencial.

Materiais gráficos:
Mapeei os pontos de contato do público com o evento: antes (divulgação externa), durante (identificação e programação) e a lógica de distribuição nos espaços. Cada peça foi pensada com função específica, não como adaptação do cartaz principal.

Ferramentas: Adobe Illustrator e Photoshop.

Decisões-chave

1. Símbolo câmera + coração — por que funciona

A junção dos dois ícones não é decorativa: é semântica. A câmera representa o meio; o coração, a relação emocional com a 7ª arte. Unir as duas formas cria um ícone legível mesmo em formatos reduzidos — crachá, favicon, carimbo.

Trabalhei em duas frentes paralelas: construção da identidade visual e desenvolvimento dos materiais de comunicação.

Trade-off: símbolo mais emocional do que institucional. Com parceria SESC — instituição com identidade visual consolidada — havia risco de conflito visual. Solução: hierarquia clara, marca da mostra protagonista, logo SESC em posição de apoio.

2. Folheto individual por filme — não um programa geral

Optei por um folheto A6 por filme em vez de um programa único com toda a programação. Motivo: público de cineclube toma decisão por filme, não por grade. Folheto individual é mais compartilhável, tem vida útil maior e funciona como memória do evento.

Especificação: couché fosco 160g — tátil, sem brilho que prejudique leitura sob iluminação de cinema. Frente: imagem + título. Verso: sinopse + horário + contato.

3. Cartazes para metrô como mídia primária

Em vez de focar em materiais para o SESC (público já convertido), propus cartazes dimensionados para estações de metrô — alcance fora do circuito cultural habitual. Alinhava com o “Cidadania” do nome: cinema como bem público.

4. Crachá como elemento de identidade, não formulário

Crachás de workshop desenvolvidos com linguagem visual da marca, não como etiqueta genérica. Em eventos culturais o crachá é visível por horas — tem função de comunicação da marca além da identificação. Modelos diferenciados por perfil: participante de workshop vs. organização.

Solução

Sistema visual coeso aplicado em:

  • Logotipo: símbolo câmera-coração, formas geométricas limpas, funciona em preto/branco e colorido
  • Cartazes para metrô: hierarquia clara, data e local em destaque, dimensionados para pontos de alto fluxo
  • Folhetos A6 por filme: três peças individuais (um por longa), couché fosco 160g — cada um com identidade do filme dentro do sistema visual da mostra
  • Crachás: diferenciados por tipo de participante, identidade visual integrada
  • Propostas de divulgação: material para distribuição nas entradas de cinemas locais e região do SESC Santos

Todas as peças partem da mesma base visual, adaptadas às restrições físicas e funcionais de cada formato.

Impacto e aprendizados

A mostra teve cobertura em veículos como G1, Diário do Litoral e Exibidor, além de cobertura no Globoplay — indicativo de relevância editorial para além do circuito local.

O evento inaugurou um formato novo na cidade: cinema nacional gratuito com debate e curadoria de gênero. A identidade visual sustentou essa proposta sem precisar explicá-la em texto — o símbolo e o sistema gráfico comunicavam inclusividade e relevância cultural de forma direta.

Aprendizado principal: em identidade para eventos culturais de primeira edição, a escolha do símbolo carrega mais peso do que paleta ou tipografia. Um ícone com carga semântica forte sustenta variações de aplicação sem perder identidade — e funciona como âncora visual para edições futuras.